Painel de Pitsa, original de Corinto, Grécia (540–530 A.C). Imagem: Museu Nacional de Arqueologia de Atenas.

Como começou o sacrifício religioso de animais

Naiara Leão

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É polêmico, mas acontece: muitas religiões sacrificam animais em rituais. Aliás, todas as grandes tradições religiosas — não só o candomblé ou o islão, comumente mais lembrados — têm ou tiveram alguma relação com a prática em algum momento da História.

Pesquisadores sabem que o sacrifício animal começou na Pré-História, mas falta-lhes um marco inicial exato. Há evidências esparsas da época em que homens eram nômades caçadores-coletores, mas para a maioria dos estudiosos a prática começou mesmo depois da domesticação de animais, nas sociedades agrárias e pastorais do Neolítico.

Isso porque o sacrifício religioso requer uma noção de propriedade, como defende o historiador das religiões norte-americano Jonathan Z. Smith. A ideia é que eu (ou nós) ofereça algo meu a Deus (ou aos deuses). Essa noção só teria surgido após a Revolução Agrícola, quando o homem mudou totalmente sua relação com a natureza. De caçador-coletor nômade, ele passou a cultivar plantas e reunir animais em um único lugar. Nesse contexto de minha terra, minha horta, meus animais, minha família (antes valia a noção de comunidade, um grupo maior compartilhando todos os aspectos da vida) teria nascido a propriedade. [que também é associada ao surgimento da família e do patriarcado. A história desse período e dessa noção é fascinante, com muitos ecos na contemporaneidade]

“Abraão e Isaque” de Rembrandt (séc. 17 ou 18). A pintura mostra o quase-sacrifício que Abraão faria de seu filho a pedido de Deus. Muçulmanos relembram o episódio em ritual anual de sacrifício animal no final do Ramadão. Judeus também praticaram o sacrifício animal durante séculos, conforme instruções da Torá e em memória de Abraão. Costume foi abolido com a queda de Jerusalém em 70 D.C, mas tem sido retomado recentemente em comunidades ortodoxas. Imagem: Museu de Arte e Arqueologia do Missouri.

O sacrifício seria uma espécie de reflexão, uma meditação sobre uma prática banal diária, o abate de animais. Segundo Smith, “a morte artificial de um animal artificial[porque criado em cativeiro e não mais na natureza]” seria a “a elaboração de uma morte seletiva contrariando a indistinção de uma morte fortuita [a que os próprios homens estão sujeitos].”

O sacrifício seria então o ritual por excelência do homem agrícola, enquanto os rituais de iniciação seriam mais característicos de sociedades caçadoras-coletoras — uma noção que pesquisas etnográficas com grupos indígenas e o avanço de descobertas arqueológicas vêm reforçando.

Ainda que o costume possa causar estranheza hoje, vale destacar que ele foi muito comum e ainda está presente na maioria das tradições religiosas — até mesmo as que não o praticam. Os católicos e evangélicos, por exemplo, nunca sacrificaram animais, mas têm toda uma doutrina e liturgia que remetem ao ritual sacrificial. Segundo a fé cristã, Jesus é o sacrifício de Deus pelos pecados humanos, o “cordeiro santo” que foi morto para purificar aqueles que escolhem segui-lo. E é por isso que, aos domingos, em sua memória come-se o seu corpo (hóstia ou pão) e bebe-se o seu sangue (vinho ou suco) assim como egípcios, gregos e indianos fizeram por milênios com a carne e o sangue de animais sacrificados a seus deuses.

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Naiara Leão

Nomad. PhD student of Religion, early Christianity and Women's and Gender Studies. Follow my IG @academicanomad