Pentecostalismo raiz: Quando evangélicos defenderam a igualdade racial e de gênero

Naiara Leão
5 min readFeb 2, 2018

O atual movimento Pentecostal e Neopentecostal brasileiro, em geral, é bem conservador. Por isso a ideia de que o Pentecostalismo tenha nascido defendendo pautas progressistas, como os direitos das mulheres, surpreende muita gente. Mas a verdade é que nas primeiras comunidades pentecostais norte-americanas, no final do século 19 e início do século 20, mulheres e negros experimentaram pela primeira vez um senso de pertencimento e dignidade dentro da cultura ocidental urbana, segundo teólogos e historiadores do movimento.

A raiz do Pentecostalismo como o movimento que conhecemos hoje (saiba mais no box abaixo) data dos meados de 1800, quando vários grupos religiosos de mundo todo experimentaram um boom de glossolalia — o fenômeno de falar em línguas desconhecidas, geralmente durante transe religioso. Apesar da referência bíblica à uma prática dos primeiros discípulos de Jesus, que teriam recebido o dom de línguas no dia da festa judaica de Pentecostes, a retomada do fenômeno assustou muita gente. Os falantes passaram a se reunir em grupos separados para teorizar e praticar seu novo dom. Desses primeiros grupos surgiram, nos Estados Unidos, o Holiness Movement, o Healing Movement e o famoso Movimento da Rua Azusa.

BOX: O que são igrejas pentecostais?
As igrejas pentecostais são, por definição, aquelas dão ênfase à manifestações dos “dons do Espírito Santo” (como falar em línguas estranhas durante o transe religioso, profetizar, expressar amor, sabedoria etc. A Bíblia lista esses dons em Atos 2). São a Assembléia de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Bola de Neve, entre outras. Já as neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça e a Sara Nossa Terra, herdam a doutrina dos dons, mas são conhecidas também pela ênfase à teologia da prosperidade, pelos bispos midiáticos e suas incursões pela política.

Nenhum dos outros revivals — como são chamados em referência à retomada das práticas da comunidade cristã primitiva — gerou tamanho burburinho. Os jornais da época relatam que na Rua Azusa as pessoas entravam em transe religioso apenas ao pisar no quarteirão onde a igreja se localizava. Gente rica e pobre, negra e branca, se misturava, caindo no chão durante as orações e falando de forma inteligível.

Pastores e missionários do mundo todo visitaram o galpão e viram, a maioria pela primeira vez, uma comunidade que…

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Naiara Leão

Nomad. PhD student of Religion, early Christianity and Women's and Gender Studies. Follow my IG @academicanomad